
O Primeiro Gole De Cerveja
E o último gole de vinho…
Para quem, como eu, começou a jogar Rugby aos 16 anos, a cerveja era o “maná” dos deuses. Depois de um jogo, mesmo de um treino, aquela caneca de cerveja fresca a escorregar pela garganta, era um prazer idolatrado.
Já tinha feito a minha iniciação na cerveja antes do Rugby e a adaptação foi rápida. Morava no Largo do Campo Pequeno, mesmo ao lado da Fábrica de Cerveja Estrela, isso permitiu-me visitá-la várias vezes e juntar ao prazer do seu gosto, o conhecimento de alguns detalhes da sua fabricação. Designações como “pilsner” (na verdade pilsen ou pilsener), uma “Lager” fabricada a partir do malte Pilsen, com Lúpulo tipo Saaz, de aroma rico, originário no malte e no lúpulo, amarga q.b. pouco alcoólica e cativante); “bock” (mais alcoólica, mais escura, obtida depois da “torrefação” do malte) eram nomes que eu lá ouvia, embora cá fora a divisão fosse entre cerveja branca e cerveja preta.
No Reino Unido havia que estar atento e pedir sempre “Lager”, ou seria servido de uma “ale”, à temperatura ambiente e de gosto muito longe daquilo a que estava habituado. O ritual de beber copos atrás de copos de cerveja, mais praticado nos países do norte sem produção de vinho, deixava-me sempre embaraçado. Quando soava a hora da proibição de vender mais cerveja (mas não de a beber), já no Bar de qualquer Clube de Rugby, se tinha formado uma fila junto ao balcão, para “açambarcar” dez ou vinte daqueles copos gigantes de mais de um litro, que eram cuidadosamente trazidos para a mesa por cada um, para ser possível continuar ali a beberricar cerveja pela noite fora, litros e litros, por entre conversas, cânticos e outros exageros.
Eu acabava por ceder todos os copos que tinha trazido aos meus companheiros, já que para mim, um era mais que suficiente (e até sobejava, daquela cerveja “ale” que já estava a uma temperatura tão acalorada quanto o entusiasmo dos convivas).
Um dia, no princípio de Junho, fui assistir ao Torneio de Sevens de fim de época em Twickenham. Reunimo-nos em casa do director da Rugby Union, já no interior do estádio, e às tantas saímos para ir ver os jogos. Foi entregue a cada um a sua parte de “víveres” a transportar para o pic-nic a fazer nas bancadas. Entregaram-me quatro caixas de latas de cerveja ou seja 4X24 = 96 cervejas! E o que me custou carregar com aquilo tudo lá para cima! Chegado aos nossos lugares, perguntei onde devia deixar as caixas. Com o ar mais natural deste mundo o Ron Tenik, quase sem me olhar, disparou: “guarda-as onde quiseres, são todas para ti …”. E há ainda quem não perceba porque é o lucro do Bar que sustenta os Clubes ingleses!
Comecei a minha vida profissional na Schous Bryggeri, uma fábrica de cerveja no centro de Oslo. Gabavam-se de produzir uma das melhores cervejas do mundo, exportavam contentores de 1 m3 para os EUA para as casas que tinham cerveja canalizada. Fiquei a trabalhar na equipa do novo projecto de engarrafamento em latas de alumínio (muito difícil de obter a autorização, porque o Governo receava a grande poluição que representava ir para o lixo uma lata quase indestrutível). Isto em 1970. Aprendi muito sobre cerveja, aprendi com os provadores a provar cerveja e, ao fim de quatro meses de estágio, aumentei substancialmente os meus conhecimentos e o meu gosto pela cerveja.
Na altura, o bife da Portugália, as conquilhas da Outra Banda, as sandes de presunto e as enguias do Caramão d’ Ajuda, pregos, tremoços, marisco, ou bitoques, a “loira” era a companheira por excelência, fiel, simplória, sempre viva e divertida.
A “imperial” ou a “sagres” acompanhou aquela geração das paródias e das refeições de cantina com garbo e irreverência e, no meu caso, redescobri-a ainda generosa, nos trópicos, na praia, a versão japonesa na minha primeira refeição de sushi em Londres, ou com uma pizza napolitana, em Nápoles, abençoando a massa, e beatificando o tomate, a mozarela e o manjericão.
Ainda hoje, com a presença inequívoca do vinho a acompanhar a refeição, preservo o gosto da cerveja. O tal primeiro gole de cerveja continua a ser um prazer indescritível.
E mesmo com a paixão e o prazer de beber vinho, a cerveja continuou a ser bebida em parcas ocasiões. Mas, caramba, insubstituível, o prazer quântico daquele primeiro trago.
Referi-o vezes sem conta a todos os meus amigos: o deleite que é para mim, o primeiro gole de cerveja.
Sempre atento, o Rui Abecassis que me ouviu dizer bastas vezes e intencionado aquela frase, enviou-me há poucos dias uma referência de um autor francês, Phillipe Delerm, que tinha escrito um livro intitulado “O primeiro gole de cerveja”.
A ideia de haver alguém a partilhar esta minha exuberância, mesmo mania, de me saber “pela vida”, aquele primeiro sorvo de cerveja, saciando-me, excitando-me, emocionando-me e definitivamente satisfazendo-me, merecia uma corrida à net a comprar o livro, deste autor, minha “alma-gémea” no “primeiro gole de cerveja”.
O título é na verdade “La Première Gorgée de bière et autres plaisirs miniscules”, comporta 29 textos e lê-se de um trago. Afinal, diz o autor, “o primeiro gole de cerveja é o único que conta”, e acrescenta que aquele estalo da língua, o aaaaaah gutural ou o suspiro de satisfação, representam uma reação de bem-estar, que saúda esse prazer inicial, sendo que “os outros goles de cerveja não são tão bons como o primeiro”.
O texto é sublime, as palavras descrevem, humildes, um prazer tão simples e que nos parece longo, “quase enganando-nos com a sensação que se abre até ao infinito…”.
Instintivamente pergunto-me a que sabe o primeiro gole de vinho. Talvez a uma “apresentação” de um desconhecido, que tentamos desvendar ou conhecer um pouco mais através dos seus modos, de como está vestido, da sua elegância.
Depois dessa “apresentação” sempre surpreendente e didática do primeiro trago do copo de vinho, a conversa que se segue ajuda-nos a compreendê-lo melhor. A gostar muito dele ou apenas assim-assim. Para, no último gole de vinho, talvez o mais importante em certas ocasiões, nos despedirmos dele com grande saudade. Ou indiferença.
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