Porque É Que Um Picasso Custa Tanto Dinheiro?

Porque É Que Um Picasso Custa Tanto Dinheiro
Porque É Que Um Picasso Custa Tanto Dinheiro

Porque É Que Um Picasso Custa Tanto Dinheiro?

“Porque há quem pague esse tanto dinheiro por ele …” será talvez a resposta que mais colhe e mais sentido faz. Mas não ganha o “milhão de dólares”, porque de imediato surgirá a nova pergunta: “E porque é que essa pessoa paga uma fortuna por esse quadro?”. Se responder “Porque a tem…”  o jogo acaba aqui. Mas se a questão lhe fizer sentido e quiser ir um pouco mais longe, poderá facilmente elencar algumas considerações bem interessantes e que contribuirão para um melhor esclarecimento da nossa interrogação:   1. “Porque gosta muito do quadro”, tem lógica, se bem que precise mesmo de dispor dessa grande quantia, sem pensar que com esse dinheiro poderia adquirir uma série de obras de outros pintores menos famosos e também muito louváveis. 2. “Porque é um investidor…”, ou seja, assume que aquele quadro se valorizará no futuro permitindo-lhe realizar uma mais valia. 3. “Porque quer impressionar os amigos”, como o fez à pouco tempo quando comprou aquele automovel de luxo. 4. “Porque quer ser reconhecido no seu meio como um “expert” em arte”, presunção muito em moda não só neste aspecto da Arte, mas em muitos outros campos, como por exemplo… nos Vinhos.

(Retirem-se as palavras relacionadas com Arte e coloquem-se em seu lugar as homólogas do Vinho, e os quatro pontos mantém-se, curiosamente, inalterados).

Mas se bem que me apeteça, não será de vinho que vos vou falar, tão-pouco de arte, não estou habilitado para isso. Limito-me a chamar-vos a atenção para alguns dos contornos com que este texto foi iniciado: o preço estratosférico que algumas obras de arte atingem.

Deixando para trás considerações sobre o mercado da arte, leilões, galerias, “dealers”, só a liberalização de economias como a China, a Índia, a Rússia e outros países de leste, levou a que o mercado da arte se deslocasse das suas anteriores posições “exclusivas” da Europa Ocidental e dos EUA, para essas regiões, com colecionadores de grande peso a revelarem-se.

Mas num mercado como este, quem é que, confiadamente, opina sobre o valor actual e pode fazer previsões futuras do valor dessas peças de arte?

Há de facto “experts” que acompanham o mercado e apoiam os investidores nas suas decisões, baseados nos seus conhecimentos, nos seus estudos, na sua prática, no seu gosto e … na sua intuição.

Um dos factores que mais influencia o preço de uma obra de arte é o seu autor. Quem é ou quem foi, o que produziu, o que criou, quais as suas técnicas, por forma à sua personagem estar intimamente ligada ao seu espólio artístico. Seguir-se-á, talvez, a escassez da sua obra, já que um artigo raro é sempre muito valorizado. Claro que tem de haver requinte na produção artística, o que a associará à desejável perfeição. E também ganhará em ser um trabalho original, arte e não artesanato repetitivo, cuja valorização é naturalmente diferente.

Então talvez possamos concluir que para termos a tentação de “valorizar” uma Obra de Arte, para além do nosso gosto pessoal,(o primeiro e mais importante impulso e sentimento para nós nos interessarmos por ela), teremos de aprofundar o nosso conhecimento sobre o autor, e de seguida tentar “ver” a obra através de critérios elementares e definitivos : é rara (única, com estilo próprio) , requintada (rigor na execução, procura da perfeição) e original (como dizia Ferran Adrià,“criar é, não copiar”).

A propósito, Ferran Adrià foi um Chef que revolucionou a Culinária, só comparável ao movimento da Nouvelle Cuisine, cuja influência no mundo da gastronomia, atravessou o planeta de lés a lés.

Se a Nouvelle Cuisine se pode inserir em relação à arte num “movimento impressionista”, ou uma “nouvelle vague” que rechaçou um receituário convencional e pesado ensinado nas Escolas de Hotelaria com base na codificação de August Escoffier,  que aligeirou, deu cor e luz, focando-se no produto (paisagens no impressionismo),  Ferran Adrià é ao mesmo tempo Marcel Duchamp, pelo rompimento com a ortodoxia de que se libertou (a refeição deixou de ter obrigatoriamente 3 pratos, entrada, peixe ou carne e sobremesa e passou a ter 10 ou 20 em porções muito pequenas ). Ou um minimalista como Dan Flavin, criando uma azeitona esferificada, por exemplo, como um dos 36 pratos do seu Menu no El Bulli. Ou ainda o Pos-modernismo de um Richar Prince, utilizando os conceitos de desconstrução e imprevisibilidade. E, tal como aconteceu no movimento da Nouvelle Cuisine, onde uma vaga de pseudo-cozinheiros tentou aproveitar o conceito, destruindo-lhe a essência e a beleza, também com Ferran Adrià, a prática do menu-degustação, e alguma má “cópia” das suas ideias, trouxe tempos de grandes desafios à restauração e aos comensais.

E chegamos assim à pergunta do título aplicada à gastronomia: porque é que há quem pague tanto dinheiro por uma refeição?

Não nos interessa analisar os que o fazem para impressionar os amigos, nem os “colecionadores” de restaurantes que os querem “picar” na sua lista, ou também os que só lá vão porque é mesmo muito caro. Quem vai a Ibiza ao Sublimotion e paga 2.000 € pela refeição, vai pelo espectáculo de um restaurante único no mundo que oferece, através de uma tecnologia sofisticadissima, uma refeição-espectáculo memorável. Basta ir lá uma vez. Já ir ao Plenitude em Paris, provar um Menu de 6 pratos, cada um inspirado num molho requintado, acompanhado por vinhos de grande gabarito por 1.000 €, é uma experiência gastronómica sublime. E cara, porque hoje há mercado para encher o restaurante todos os dias, com muitos clientes que têm dinheiro e querem experimentá-lo, o que mantém o restaurante a funcionar com os gastos elevados na cozinha e na sala, que funcionam numa harmonia perfeita. Vale a pena a um gastrónomo, ir lá pelo menos uma vez.

Mas o que se passa com o restaurante quotidiano, aquele a que vamos com mais à vontade e frequência? Hoje nunca conseguimos estar actualizados com as estrelas que nascem quase diariamente no firmamento da restauração. Temos, felizmente, entre nós muitos e bons Chefs, os confirmados e os jovens, dedicados e estudiosos, apaixonados pela profissão e que sonham com a sua afirmação e o seu reconhecimento. Deles, como sempre, uns serão mais talentosos que outros e alguns serão bafejados pela sorte, enquanto alguns terão de sofrer mais para subir na difícil profissão que escolheram.

No passado recente a bagagem do cozinheiro era o conhecimento das receitas, hoje a tendência é mais o domínio das técnicas que permitem elaborar os diversos componentes de um prato que a sua imaginação e criatividade idealizaram. No passado a cozinha era “plágio” (elaborar receitas de outrem) e “adaptação” (alterar e adaptar as receitas à sua própria personalidade), hoje é “improviso” (mas não o “improviso” à portuguesa, antes o “improviso” como no jazz, onde se exige muito ao virtuosismo do instrumentista). E aqui não pode ser a simples utilização de uma qualquer receita, a que no fim se junta um remate de yuzu ou kimchi, ou “dashi”, para ficar diferente.

 

Por isso actualmente quando se escolhe um novo restaurante cuja crítica ou voz amiga elogiaram, convém seguir o método do “expert” em arte. Quem é o autor (chef? Já deu provas? Tem currículo? Está na moda ou é reconhecido? Qual o seu estilo?

As suas criações culinárias são originais? Não são cópias? E a forma como apresenta essas criações é requintada? Segura? E já conseguiu que alguma dessas criações fosse considerada única? Personalizada? Rara mesmo?

O preço associado à refeição tornar-se-à justo (mesmo que seja “muito” dinheiro) à medida que o Chef (autor/ artista de arte efémera) é reconhecido pela crítica, pelo público e pelos seus pares; a sua cozinha é imaginativa e original; é elaborada sempre com requinte e a tender para a perfeição; e esse seu estilo é raro, só ele é que o pratica com sucesso.

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