Observatório Europeu de Gastronomia

Observatório Europeu de Gastronomia
Observatório Europeu de Gastronomia

Observatório Europeu de Gastronomia

A gastronomia ao serviço da vida: estimula os sentidos, cultiva o saber e promove o equilíbrio, o bem-estar e o crescimento económico.

 

Enquadramento

Em março de 2014 o Parlamento Europeu aprovou a Resolução sobre o património gastronómico europeu: aspectos culturais e educativos.

A iniciativa foi o culminar de um processo promovido pela Real Academia de Gastronomia Espanhola (Rafael Ansón, Presidente) e pela Fundação Espanhola de Nutrição (Gregorio Varela, Presidente).

A Resolução salienta a importância de identificar, catalogar, transmitir e disseminar a riqueza cultural europeia, advoga a criação de um Observatório Europeu de Gastronomia e recomenda que a Comissão inclua a gastronomia europeia nas suas iniciativas e programas culturais.

A Resolução surgiu do compromisso em incorporar conhecimento e inovação na gastronomia, desenvolvendo novas experiências gastronómicas baseados na tradição, como forma de garantir a sustentabilidade das regiões e dos seus produtos.

Tal abordagem implica considerar a gastronomia como “a combinação de conhecimento, experiência, arte e tradição que proporciona experiências de alimentação saudável e com gosto”, assim como “parte integrante da nossa identidade e uma componente essencial da herança cultural europeia”.

Por outro Iado, a gastronomia é reconhecida como fundamental no suporte das tradições culturais e festivais das regiões, baseada no reconhecimento da herança e dos hábitos sociais e gastronómicos únicos de cada país, assegurando desse modo uma produção local de elementos com qualidade.

Paralelamente, a gastronomia tem vindo a assumir um Iugar de destaque na expressão cultural e artística, em que a comida e a sua preparação são um dos pilares fundamentais das relações familiares e sociais.

Por último, a gastronomia tem vindo a ser identificada como um elemento chave na promoção do turismo e é uma fonte da riqueza económica e cultural que compõem a União Europeia.

Em suma, a Resolução incide em aspetos educativos e em aspetos culturais do património gastronómico europeu e, no seu ponto 40, “insiste na importância de identificar, inventariar, transmitir e difundir a riqueza cultural da gastronomia europeia; incentiva a criação de um observatório europeu de gastronomia”.

A gastronomia europeia é património de todos que interage com um conjunto de valores que importa salvaguardar e valorizar.

Interações e ligações à:

Cultura

A gastronomia reflete não apenas a história e tradições de um povo como muitos dos movimentos culturais pelos quais um determinado país atravessou.

Relações Sociais

A arte culinária como um importante aspeto da vida em sociedade e com uma influência positiva nas relações sociais e familiares.

Os hábitos alimentares dos europeus proporcionam uma rica herança sociocultural que deve ser transmitida às gerações futuras. Urge reconhecer essa herança europeia em termos gastronómicos e proporcionar a sua correta disseminação.

A gastronomia permite um maior conhecimento e identificação entre os povos podendo constituir um dos momentos de partilha e de comunhão mais importantes no relacionamento de todos.

Agricultura, Indústria Agro-Alimentar, Economia e Turismo

Para muitos turistas a gastronomia tornou-se o tema central da sua experiência num país, tendo por isso o Turismo Gastronómico ganho um importante papel nas estratégias de captação de novos fluxos turísticos. Os turistas são cada vez mais atraídos pelas experiências únicas que os ligam às regiões que visitam e muitos destinos estão a centrar o seu desenvolvimento turístico na capitalização dessas experiências. Com a gastronomia tão intimamente ligada à origem dos produtos e cultura de cada região, este factor faz com que os destinos se promovam apelando ao valor único da sua gastronomia.

Este factor é também uma forma de dispersão geográfica e elemento importante para as áreas rurais, mais próximas dos produtos. O Turismo gastronómico é particularmente importante nestas regiões e constitui um elemento fulcral na geração de novas empresas de produtos e serviços associados a gastronomia, nomeadamente a produção local. A gastronomia é um factor de desenvolvimento económico das regiões rurais, sendo o reflexo da produção agrícola de cada região, permitindo estimular de forma integrada a Industria Agro-Alimentar, com consequências claras na economia do país.

No sector do Turismo, a gastronomia alavanca a experiência de visita ao destino, actuando nos três campos de activação de marcas: ao constituir um motivo por si só para a viagem (momento da captação), um factor fundamental na experiência de viagem no pais (a gastronomia é dos factores que mais impacto tem na experiência global da viagem) e na fidelização, repetição ou duração da permanência num destino.

Gastronomia e Culinária

A gastronomia é uma das mais importantes expressões culturais do ser humano e que deve ser entendida não só no que diz respeito à alta cozinha nas também em relação a todas as formas de cozinha que derivem da cozinha local e tradicional, sendo fundamental o papel desempenhado pelos Chefes na preservação e exportação do património gastronómico e da experiência culinária.

Gastronomia e Sustentabilidade

A inovação na gastronomia constitui um motivo adicional para a manutenção da sustentabilidade de uma região, através da melhoria continua da qualidade dos seus produtos e do seu valor, fortalecendo o elo de confiança com os consumidores, ao saberem a origem dos seus produtos e a sua ligação à tradição do país.

A gastronomia acentua a ligação dos meios rurais à cidade, promovendo um correcto desenvolvimento regional e contribuindo para o enriquecimento dos meios rurais.

Gastronomia e Educação

A infância é um período decisivo em termos da educação em comportamentos e estilos de vida saudáveis — é o momento indicado para formatar comportamentos de longo prazo às gerações futuras.

Por isso é importante incluir nos programas de educação, desde a infância, o estudo e a experiencia sensorial dos alimentos, saúde nutricional, incluindo a historia, geografia, cultura e aspetos experienciais.

É também relevante que os currículos escolares incluam informação sobre a cultura gastronómica, em particular a nível local, a preparação, produção, conservação e processos de distribuição de alimentos, as influências culturais e sociais dos alimentos e os direitos dos consumidores.

Fundamentos

A gastronomia é um valor essencial da identidade europeia e interage com uma complexidade de áreas, nomeadamente saúde, cultura, agricultura, ambiente, economia.

A complexidade de interações, diversidade e riqueza da gastronomia europeia impõe a premência de um organismo que reconheça a sua importância como depositário de uma cultura rica e diversa e como factor agregador e de união dos seus membros, desenvolvendo não apenas estudos e sendo um depositário desta diversidade, mas sobretudo promovendo e apoiando a sua valorização nas várias vertentes que a compõem. Este organismo será assim, mais que mero observatório ou centro de estudos, um factor de coesão europeia ao reconhecer as valências de cada região, promovendo-as, estimulando a sua partilha e aceitando as suas diferenças.

Num momento de grandes mudanças e conscientes da riqueza patrimonial que a gastronomia representa para cada país e do seu papel como factor agregador e demonstrativo da nacionalidade, é responsabilidade da Comissão o reconhecimento deste mesmo papel, assumindo-o como elemento a valorizar no caminho da integração europeia.

Modelo

O Observatório deverá assumir o papel de principal centro de estudos relacionados com a gastronomia e a sua valorização:

– centralizando a informação diversa sobre a riqueza da gastronomia nas diversas regiões da Europa, suas motivações e impactes socio-economicos e demográficos;

– constituindo um centro de partilha de experiências, de intercambio de iniciativas e sinergias entre diversos organismos (públicos, privados, associações, academia);

– estimulando a afirmação de uma cultura e gastronomia europeia, baseada na diversidade da gastronomia dos diversos Estados.

O Observatório deverá ainda assumir o papel de principal veículo de divulgação:

• das características únicas que nos distinguem em termos alimentares, ajudando as crianças e jovens a conhecer e respeitar essas diferenças;

• das semelhanças alimentares, fortalecendo assim o sentido de pertença a uma comunidade alargada e de promoção de uma integração intercultural;

• das vantagens relacionadas à utilização de produtos regionais na confecção bem como o impacto que a mesma tem no meio socio-ambiental;

• da inovação que Ihe pode ser associada e sua importância a nível económico e turístico num mundo cada vez mais competitivo e exigente nesta área.

O Observatório deverá ainda assumir um papel educacional que permita:

– identificar as causas histórico-sociais que estarão na base das dietas e da gastronomia e, assim, ajudar as gerações mais novas a desenvolver um sentido crítico relativo a essas práticas;

– criar as condições para que, sempre numa perspectiva multidisciplinar, melhor se compreenda a realidade regional e os benefícios decorrentes das diferentes gastronomia e seu impacto não só na produtividade dos países mas também o seu progresso económico e social;

Usando as palavras de Gregorio Varela, Presidente da Fundação Espanhola de Nutrição, “o objectivo é ensinar um novo conceito de nutrição, baseado na saúde e no prazer, na atividade física e na alteração de comportamentos“.

Em resumo, é essencial a existência de um órgâo independente em matérias técnicas, com autonomia legal, administrativa e financeira que responda aos desafios que existem, concretamente:

a) desenvolva estudos de natureza técnica e/ou científica no âmbito da gastronomia e da alimentação europeia, envolvendo elevado nível de conhecimentos, serviços altamente especializados e stakeholders;

b) dê apoio técnico e científico à implementação de políticas europeias que promovam e protejam a gastronomia europeia de forma eficiente, flexível e sistemática, estimulando a inovação e cooperação entre os Estados Membros e a União Europeia no âmbito da gastronomia.

Missão e competências

Na sequência da Resolução de março de 2014 considera-se importante e necessária a criação do Observatório Europeu de Gastronomia, com a missão de:

a) Apoiar e promover a gastronomia europeia;

b) Identificar, catalogar, transmitir e disseminar a riqueza cultural da gastronomia europeia;

c) Promover os produtos gastronómicos europeus;

d) Assumir a gastronomia como fator de identidade europeia;

e) Dinamizar a gastronomia europeia como fator de atratividade turística;

f) Desenvolver os aspetos culturais da gastronomia, a troca e partilha de culturas e a promoção das regiões;

g) Apoiar as iniciativas que possam ser desenvolvidas pelos Estados Membros e as suas regiões para promover e preservar o território, a paisagem e os produtos que fazem parte da herança gastronómica local;

h) Desenvolver programas de estudo que formem profissionais e que abranjam a gastronomia local e europeia, a diversidade de produtos e processos de preparação, produção, conservação e distribuição de alimentos;

i) Promover a troca de conhecimento e boas práticas no que diz respeito à educação e propagação do conhecimento em gastronomia;

j) Promover uma dieta saudável que seja acessível a todos;

k) Promover e apoiar a produção de alimentos variados, de qualidade e em quantidade suficiente;

l) Promover o reconhecimento e o labelling da produção europeia de alimentos, no sentido de aumentar o valor desses alimentos, conferir melhor informação e proteger a diversidade da gastronomia Europeia;

m) Estudar o impacto das leis adotadas na capacidade, diversidade e qualidade da produção alimentar;

n) Implementar programas que eduquem e aumentem a difusão de conhecimento sobre as consequências de um inapropriado consumo de álcool e aconselhando padrões de consumo inteligentes, que preservem a riqueza da cultura do vinho na Europa;

o) Melhorar a qualificação e o modo de atuação dos diferentes profissionais que pela sua atividade possam influenciar conhecimentos, atitudes e comportamentos na área alimentar;

p) Promover a troca de informação e de práticas nas áreas da alimentação e gastronomia.

A promoção da riqueza gastronómica é uma das prioridades do Governo de Portugal, reconhecendo-lhe assim os efeitos positivos que induz em áreas tão relevantes como o desenvolvimento económico e social do interior e do mundo rural, a capacitação e especialização de pessoas e empresas e o posicionamento do país enquanto destino turístico e cultural. As propostas de ação governativa que têm vindo a ser implantadas neste campo, em parceria com o setor privado, têm contribuído para consolidar o conhecimento e importância do património português gastronómico, fomentar a investigação e inovação nos processos e na criação de novos produtos e promover Portugal como destino de gastronomia a nível mundial. Portugal pretende assim acompanhar o desenvolvimento científico, técnico e cultural da gastronomia nacional por forma a consolidar a memória futura da história e o posicionamento de Portugal no mundo.

Concretizando esta estratégia, de conferir à gastronomia um papel central e aglutinador de desenvolvimento socioeconómico, de preservação da cultura tradicional e das tradições do mundo rural, o Governo de Portugal tem já em curso um conjunto significativo de iniciativas e projetos que visam a criação de conhecimento e investigação gastronómica, como fator de inovação e desenvolvimento, dos quais destacamos:

1) Criação e implementação de novas áreas de educação e formação no domínio da gastronomia, com a criação de novos cursos de formação profissional, de licenciatura, de Mestrado e de Doutoramento, em diversas Escolas de Hotelaria, Institutos Politécnicos e Universidades;

2) Instituição do Dia Nacional da Gastronomia;

3) Constituição de Redes Territoriais de desenvolvimento, centrados em projetos de investigação em gastronomia;

4) Reorganização de Eventos gastronómicos regionais e nacionais criando sinergias e complementaridade entre todos os agentes;

5) Desenvolvimento de projetos de cooperação internacional, tanto a nível Europeu como com os Países Mediterrânicos e Ibero-americanos em projetos globais de promoção da cultura gastronómica;

6) Consolidação do produto EnoTurismo, através da criação de Rotas Enogastronómicas;

7) Desenvolvimento de diversos programas de Educação para a Saúde, em parcerias entre os Ministérios da Saúde e da Educação, com a criação de projetos específicos para os diversos níveis de escolaridade;

8) Melhoria da obtenção de dados estatísticos na área do turismo gastronómico, tendo em vista a introdução de informação atualizada para os diversos agentes do setor;

Esta aposta consciente e estruturada faz de Portugal o local adequado para a instalação do Observatório Europeu de Gastronomia, tanto pelas suas características intrínsecas, como pela vontade e determinação em trabalhar em rede para a coesão europeia, numa das componentes fundamentais do setor do turismo.

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